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Luís Bento
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Página de Luís Bento

PRENDA DA MADRUGADA

 

Por mais que ele puxasse as baínhas à memória não encontrava a costura onde se perdera da paixão. Fosse por míngua de alimento, fosse por ausência de palavra, o certo é que, escudado na sabedoria paterna que bastas vezes lhe zurzira, com firmeza, ser a poesia um bálsmo para a alma, mas fraco aconchego para o estômago, a deixara morrer em lume brando acabando por lhe fazer o funeral ao longo de uma vida de trabalho árduo e de apetites saciados em relações sem corda ou baraço de tamanho suficiente para o compromisso. Ganhara o estômago numa luta desigual com o dicionário dos afectos…

 

Ela, por sua vez, adormecida numa quietude morna e constante, sem sobressaltos, habituada ao quotidiano novelesco iniciado, bem cedo, à porta de casa e a terminar já com o sol entretido a desenhar geometria na sombra dos muros de reboco mal acabado, doce, sensível, embrulhada numa aparente fragilidade, de olhar a um tempo sereno e forte, buscava uma melodia afinada no seio da paixão que ,ao invés de pernoitar, residisse em permanência naquela assoalhada vaga no coração.

 

Magnânimo e omnipresente, talvez por distracção ou experiência, o destino dera-lhes uma prenda. Tropeçaram um no outro numa química em efeverscência e sem manual de instruções. Os corpos, nus, moldados numa forma única, consumiam-se num movimento lânguido e lento , através dos cabelos dela escorregando teimosamente por entre os dedos dele que, de olhos bem abertos, se deliciara com o gemido rouco e profundo com que ela lhe acariciara os lábios . A lua a estender-se pelo céu com uma dormência dolente e preguiçosa e o relógio a encher-se de horas e eles, de mãos dadas, experimentando num último estertor de prazer, um sorriso amplo e afogueado a iluminar a face de ambos.

 

Ele, cogitando de olhos no tecto, percebera que não precisava mais de puxar as baínhas à memória. Ela, estranhando-lhe o silêncio, não resistiu à pergunta:

 

- E tu? Em que pensas?

 

Dominado ainda por uma réstea de calor, fez uma pausa, inspirou fundo e, de sorriso nos lábios, perguntou-lhe por sua vez:

 

- E tu? Sabes o que é amar?

 

Ela, sem ponta de espanto, sorriu, recordou as palavras doces da mãe que, com uma paciência ilimitada lhe saciava a curiosidade desconcertante da idade dos porquês, aninhou-se-lhe no peito , atirando-lhe num sussurro:

 

- Amar? Amar…É gostar de ti com muita força…

 

 

 

FASHION HEROINE

Às vezes escorregava em ,prestações suaves, pela memória desfiada a preto e branco desde os acordes do hino nacional a encerrar a emissão televisiva com estrondo, até aos bancos da escola onde se grafava ainda, teimosamente, Goa, Damão e Diu como territórios ultramarinos, no mapa-mundi de pontas enroladas a querer baldar-se para o chão junto de um circunspecto e inútil corta-fitas num retrato com pose de presidente, faixa, medalha e comenda com os dizeres em bold cínico: SUA EXCELÊNCIA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA ALMIRANTE AMÉRICO TOMÁS. Era da alvura das batas torturadas pela lexívia e pelo OMO branco mais branco não há, que divisava a figurinha minúscula e atarracada, em redondo carica, da Dona Irmelinda nascida nas entrelinhas dos sessenta, já de casaquinho de malha assertoado pelo botão do meio de madrepérola reluzente que se vendia na retrosaria, em caixas de inocência rosácea, acantonadas nas prateleiras por trás do costado curvo do senhor Arnaldo, de óculos presos na ponta do nariz esmiuçando e remexendo até à eternidade , carrinhos de linha da coats and clark entrecortados por um chiça! envergonhado quando se espetava nas agulhas número três dolorosamente desarrumadas.



Esbaforida, pela rua General Taborda acima com a alcofa atafulhada de peixe, grelos e nabiças vinda da praça onde era mais barato e fresquinho, sem réstea de brilho, pigmento, laca ou perfume há muito perdidos nos vestígios arqueológicos dissecados por peritos do Neolítico. Apenas o vermelho afogueado lhe acariciava a face na pressa com que roubava tempo ao macadame para evitar o fedor a atraso em direcção à tabacaria onde, vício supremo do luxo de pobre, comprava a Crónica Feminina e se deixava levar pela fantasia da fotonovela ou pelo conforto dos anúncios dos vestidos, das malas e casacos de inverno que ela bem precisava de um, numa alienação inocente e consentida apenas interrompida pelas letras do carro que, paulatinamente apresentadas pelo cobrador, grunhiam nos dentes amarelos do tabaco que o marido ainda andava a pagar.

Se do céu caíra uma estrela, na passserele, lânguida e sensual, rica de decotes e ousadias, passeava-se um anjo livre, poderoso e reluzente onde o diabo até podia vestir Prada, Armani ou pele corada em pecado, mas acima de tudo, a vida se trajava de texturas quentes e garridas numa miscelânea de cor, romântica e despojada de preconceitos. Fora aí que o conhecera. Meio palmo de cara bem tratada e escanhoada com o beneplácito de Apolo em dia de tiro aos dardos. Chegara à conclusão, contudo, que Darwin só germinara e evoluíra no universo feminino e se pusera a fancos ao primeiro sinal de alerta da coutada do macho ibérico. Tolo! Era um tonto! De sorriso idiota de conquistador em saldos confundindo Louboutin com a lobotomia que o assistente do doutor Egas Moniz fizera à cabeça, numa operação delicada, da sua tia Emília.

 

Esfumaçava, perdidamente, todo nu seguro da sua virilidade canhestra pensando que lhe tomara o corpo e não se dando conta, sequer, que ela apenas lho emprestara para que ele se perdesse no cárcere das suas coxas. Ela esboçava um sorriso malicioso e interior. Ele soltava baforadas confiantes de Torquemada de queluz ocidental, olhando, de soslaio, ar de asno inquisidor. E ela voltava, sorrateiramente, à D. Irmelinda e aos seus brincos , batons, pó de arroz e outros acessórios reluzentes que, só por milagre ou distracção do Senhor, deixariam as páginas de papel.

Ela bem gostaria de andar na moda, mas só a cunhada, que era uma desbragada que fintara as desgaças da vida e lhe trouxera um conjunto de batons da África do Sul onde elas andavam de mini saia, bebiam como os homens e até já fumavam e tudo, lhe concedia carta de alforria , ainda que por breves instantes, para a terra do sonho. E foi num desses dias em que, por distracção , se atrevera a experimentar a prenda da cunhada diante do espelho gasto e roído de ferrugem, que não dera pela chegada do marido. Contrariado por não haver almoço na mesa e estarrecido pelas cores dos trapos, ficou furibundo quando vislumbrou a imagem fálica do batom esgaçando por entre os dedos, pronto a tomar de assalto os seus lábios ressequidos. Alçou o braço direito e deu-lhe uma palmada com força estilhaçando o batom em pedaços no chão da casa de banho. E então sem pensar, decidira que era altura de romper com o medo que a agrilhoava numa tacanhez e subserviência fora de moda. Ainda ele se preparava para alçar o braço de novo quando levou, violentamente, com um jarrão de loiça de sacavém que custara uns bons cinco kilos de escudos, na cabeça…

 

Baixou-se para apanhar um coto de batom e , não reprimindo um sorriso, inflou o peito de ar , inclinou-se sobre o espelho e começou, calmamente, a pintar os lábios, percebendo, então, que a diferença entre subserviência e emancipação distava apenas doze pontos bem cosidos na testa do marido pela destreza e perícia do enfermeiro de serviço no posto clínico e que, estar no tom da moda era ousar viver numa liberdade conceptual e estética em que a vida… era o tom…


http://bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com

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Caixa de Recados (2 comentários)

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Às 21:47 em 26 agosto 2015, hope disse...

Olá Paz seja convosco,

Eu desejo que você e sua família momentos felizes da vida agora e para sempre amém. Por favor, eu não tenho relação formal com você, mas por causa da minha situação e as circunstâncias presente Eu sou feito entrar em contato com you.I ter sido vítima de câncer e têm uma vida curta para leave.I fiz a minha mente para doar a minha herança de 6,5 milhões de USD para os menos privilegiados por favor me ajude a cumprir o meu último desejo.

Entre em contato comigo através do meu e-mail privado: glorysamuel54@gmail.com

Espero ouvir de você

Obrigado

Mrs Glória Samuel.
E-mail: glorysamuel54@gmail.com

Às 19:49 em 1 abril 2012, Flor de Esperança disse...

Seja muito bem vindo Luis!

feliz semana

Beijos no coração

Blog de Luís Bento

Prémio Literário Lions Club International 2017

Postado em 27 junho 2017 às 14:49 0 Comentários

Luís Bento distinguido com o Prémio Literário Lions Club International 2017

Surpreendido e muito feliz, é como me sinto por ter sido distinguido com o Prémio Nacional de Literatura Lions…
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PENSO, LOGO EXÍLIO

Postado em 5 junho 2013 às 22:48 0 Comentários

A tia costumava dizer que ele era assim, meio avariado, desde pequenino, que trazia lá dentro, algum botão escangalhado. E dizia-o com ar blasée enquanto distraía a vista cansada nas montras da Joframa, na rua dos Fanqueiros, pejada de manequins amarelos e mortiços, aqui e ali esfolados e com mossas na tinta. Era o tempo em que o universo era feito de legos, livros e coisas boas e em que todos queriam ser alguma coisa: polícia, bombeiro ou astronauta. Ele não queria ser nada.…

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700 participantes e 10 textos escolhidos por um jurí constituído por Valter Hugo Mãe, Doris Graça Dias e Carlos da Veiga Ferreira. O meu conto está a votos no site da FNAC. Fashion Heroine é o meu  c…

Postado em 5 julho 2012 às 0:11 0 Comentários

700 participantes e 10 textos escolhidos por um jurí constituído por Valter Hugo Mãe, Doris Graça Dias e Carlos da Veiga Ferreira. O meu conto está a votos no site da FNAC. Fashion Heroine é o meu  conto a concurso com vista à publicação. Basta seguir o link e votar... Um endereço de e-mail por dia.…





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AS PALAVRAS

Postado em 11 dezembro 2011 às 11:25 0 Comentários

PALAVRAS

Sentia falta das palavras, dos gestos, do mimo e do sorriso com que pintava o dobrar dos dias, do olhar terno e profundo, convite explícito e aberto a devassar-lhe a alma, em  final de tarde, remendo de primavera colado à pressa sobre aquele Dezembro irreconhecível e confuso no jardim de relva bem tratada, com um castanheiro secular, um banco pintado de fresco  e uns arcos de pedra do tempo dos romanos, obscenamente grafitados sem…
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