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Neste fim de semana... Um Poema do livro FÁBRICA NOCTURNA

LONDRES

 

Visitei Londres pela primeira vez numa manhã de Primavera.

Numa das margens do rio, um pouco ao estilo vitoriano

rapazolas snifavam tranquilamente

tornavam real e popular o mistério que William

Blake espalhou pelas coisas do inferno e do céu.

Velho carola

O que eu lhe li nas entrelinhas

o que eu inventei à sua custa com a proverbial

lucidez mediterrânica

Mas passemos adiante. Salvo erro

- e creio que isto é exacto –

daquela maneira desasada é que habitualmente circulavam

os que numa serena e fresca noite resolveram limpar o sebo

mesmo sob o nariz dos transeuntes

à jovem Elisabeth Douglas com sete naifadas no baço

(a sua mãe, o seu pai choroso

o ar compungido da locutora boazona

o cheiro provável a cera fria dos demais figurantes…)

Os cisnes em Datchet Court

solenes como dois turistas numa pensão da linha.

Londres Londres  dali vejo partir os velhos aventureiros

G.A.Henty com a sua gravata verde os olhos piscos

Poetas envinagrados conjurando-se a uma esquina

lançando a âncora num pub despertando lembranças

Sucheu   Bali   as savanas do monte Kenya

lá passam de autocarro até Hampstead

não naturalmente pelos livros mas sobretudo

pelos leitores “recordo-me que uma vez

tentei trabalhar numa casa depois de uma outra quadrilha

lá ter estado”  O meu vizinho que sabe

que tudo é citação faz-me sorrir

conta-me coisas   adormece-me.

 

Muitas coisas ficam desconstruídas, do grave

ao divertido

ao fim duma meditação intempestiva

Os domingos de sol

As prímulas na pradaria de Runnymede

O choro de Defoe ou de Donne sobre os rochedos de Chaltenham

O amplexo de um preto velho numa lojeca de Carnaby Street.

Mas a inocência

é já matéria sem relevo

é uma pérola uma pedra fibra descarnada e melancólica.

Londres exactamente   e tudo o mais é divagação

há 300 anos eu aqui seria um inimigo.

Os salpicos de lama feriam-me a concentração

mas não havia bruma   ouvia-se

um piano mecânico nas redondezas

Deserta a cidade rapaziada pedante mariquices isabelinas

- o obelisco como um carvalho nas colinas de Cape Staines.

É difícil pensei eu lançar o olhar em volta

tanta coisa poderia eu sei lá acontecer

A rapariga junto ao poste de iluminação   pensativa

Cinco sonatinas para violoncelo e a sombra de Mateus Pipperbarem

uma voz que ondula de repente   e pára.

Ferrovias contudo desdobravam-se ao longo dos continentes e foi então

Que me ocorreu  Mas que faço

eu aqui

No entanto uma doçura muito velha percorria-me de cima a baixo

a Inglaterra florida e violenta martelava-me na cabeça

Robinson surgia de súbito acenando   com um jornal na mão

Interrogativo um pouco alucinado.

 

A minha alegria ousará abrir caminho por aqueles labirintos.

A tepidez do Inverno num lugar mais aprazível.

Olho de novo o céu. A multidão comprime-se.

Noutras condições pergunto ainda estarei no recanto que sonhara?

 

de “Fábrica nocturna”

 

 

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