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Lembro-me bem daquele final de tarde. Havia rodado, praticamente, toda a cidade em busca de uma editora que aceitasse a primeira redação de uma obra de contos, mas todas as respostas foram: no momento não estamos aceitando originais para avaliação!

Cansado coloquei aquela obra, datilografada, num canto qualquer, e joguei-me sobre a cama. Ao invés de um, usei dois travesseiros, pois assim, minha cabeça ficaria numa posição mais elevada, e daquele jeito tornar-se-ia menos complicado ler o livro que tinha comprado num sebo, por apenas um real.

Alguns leitores medem o talento de um escritor pela espessura de suas obras, mesmo que a leitura seja cansativa, e não pelo conteúdo.

Para ledores desta envergadura não é nos pequenos frascos que estão os melhores perfumes. Livro bom é aquele que fica em pé sobre uma escrivaninha. A obra que havia comprado fazia um enorme esforço para passar das setenta páginas. Setenta e quatro, setenta e seis, talvez um pouco menos, talvez um pouco mais. A única possibilidade de ficar em pé era escorada num porta canetas, ou porta lápis. Quiçá nos dois.

Ficar deitado. Este foi o destino traçado pelo autor do livro que havia me custado um real, por isso, nada mais justo do que colocar-se na posição de deitado para lê-lo.

Como obra literária sua vingança foi fazer de seu autor um péssimo escritor aos olhos dos fariseus do mundo literário, com seus livros espessos, deixando os marca páginas a vista como uma demonstração de bons leitores. Na disputa entre Cristo e fariseus, fiquei do lado de Cristo, demonstrando certo apreço pelo autor, afinal, meses atrás, no mesmo sebo, e também por um real, havia comprado, e lido, outra obra sua, e tinha ficado com uma boa impressão do conteúdo contido nesta obra, perdida no meio de outras tantas. Quem a encontrasse poderia levá-la por um preço irrisório, e quis Deus que eu me deparasse com ela.

Uma bagunça generalizada. Sem sombra de dúvidas esta é a frase certa para descrever a situação da sala que ficava no segundo andar da livraria. Havia, inclusive, uma grande quantidade de livros espalhados pelo chão. Alguns exemplares já estavam um pouco deteriorados, prova visível, incontestável da ação do tempo e do ambiente, e necessitavam mais do que simplesmente a remoção do pó. A lógica se atrevia apostar que a urgência logo, logo bateria na porta de um restaurador, se ali tivesse, por ventura, obras de autores de renome, mas não era esse o caso.

Uma boa impressão gera confiabilidade, e foi à credibilidade do autor junto a mim, crédito a primeira obra, que fez com que eu comprasse a segunda, não me importando com o título, com o número de páginas, nem com a espessura do papel.

Umas poucas páginas lidas, num final de tarde sem suntuosidade aos meus olhos. Junto com o desejo de parar, nasce a necessidade de continuar. Na parte que coube ao amor, deu-se início ao arranca-rabo*.

Um amor constituído de matrizes diferentes. Padecente e ao mesmo tempo agradável, brando, suave. Não sentia ciúme, não tinha em si a característica ou propriedade do ser que é, ou se faz leviano. Não tinha por hábito enfatuar-se. Não cometia abusos contra qualquer pessoa, e a si mesmo, não era grosseiro, nem egoísta, não ficava irritado, nem guardava mágoas.

Um amor que não se alegrava quando alguém fazia algo errado, mas se alegrava quando outrem fazia o que era certo. Não havia em si o vocábulo desistir, suportava tudo com fé, esperança e paciência.

Pensei ser o autor o ofertante deste amor que, me oferecia tudo aquilo que não queria naquele momento. Fechei o livro, e fixei-me na contracapa. Por trás dos óculos lentes grossas havia um senhor calvo, de bigode espetado, talvez pelo tamanho. Se o deixasse crescer um pouco mais, os fios poderiam ficar pendidos para baixo, ou então com o auxílio das próprias mãos ou de um pente, poderia fazer uma parte estender-se para a direita e outra para a esquerda. Cada um com suas preferências.

Odiei-o, e jurei esmurrar sua cara, se por ventura o encontrasse na rua. Desejo realizável, uma vez que morávamos na mesma cidade.

Voltei-me, novamente, para o capítulo referente ao amor.

Uma frase seguida de outra frase, sempre com alguém as respaldando em meu coração. O objetivo era me convencer a aceitar as virtudes eternas contidas naquele amor oferecido a mim de modo gratuito.

Como resistir tamanho poder, dotado de tão grande habilidade para persuadir?

Como uma gota d’água caindo numa página de jornal, expandindo para todos os lados. Este foi o resultado do acolhimento deste amor.

Fui eu a página de jornal, e a gota d’água o lavar regenerador do Espírito Santo**.

 

*1Coríntios 13/ 4-8

**Tito 3/ 5

 

 

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