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GÉNESIS

 

Pode fazer-se um poema com restos de poemas

e nem sequer só nossos. Basta saber escolher, tal como

uma dona de casa catando coisas frugais

numa perdida loja de subúrbio. (No entanto

o problema é: como conciliar os invisíveis

ou visíveis rastos de luz que as palavras

fazem rodar entre a noite e a manhã

das letras).Ou, melhor ainda

entre mil silhuetas de páginas desconhecidas

de esquecimentos

de risos ou

de decisivos desprezos.

 

O como, o talvez, os advérbios de lugar

ora dormem ora despertam. Podemos dispô-los

como flores silvestres

como pedras fibrosas ou tijolos

ao longo dum muro de quinta

no interior real dum jardim

ou como pedras tumulares

essenciais e descontínuos. Podemos trocar

a memória dum substantivo, de uma mancha de sangue, de uma

bastonada na cara    ou de um suspiro. Podemos tirar

duma frase engolida o duro perfil duma alegria, ou mesmo

um verbo definitivo para um contentamento

um tempo a morrer

estático ou já liberto. Ouçam

 

o canto da noite: nesse silencio, pé ante pé

há ruídos e gestos, uma que outra amargura, a matéria sensível

que os poemas abandonaram. Ouçam o canto

da noite: cidades ao amanhecer, os sons inúmeros, nítidos, a substância

de um vulto ao crepúsculo. (A grande chuva, o grande sol

que nada mais são que recordações

trazidas por alguém

numa folha rasgada, num fragmento de minutos). Ouçam

o canto da noite

e saibam depois esquecer.

 

Todo o livro é um simulacro. Algo que se perdeu. Mas todo o livro existe

na sua atmosfera de fechada revelação

de velada inexistência

de apenas sopro ou vestígio

de móvel ou imóvel figura destroçada. Sim, pode fazer-se

não um mas muitos poemas sobre o como e o porquê

ou sobre o nada que eles, afinal, revelam

ou sobre o muito que eles, afinal, são

ou sobre o muito e o nada que lhes reside em volta

enquanto os anos perdem a nitidez

e as fronteiras perdem o sul e o norte

a sua altíssima impresença o seu finíssimo vazio

a sua transparência abominável

e sagrada

de desabafo

ou sortilégio. Sim, ouçam o canto da noite

a tal coisa que engrena

e se põe a correr

e se põe a parar

e cria em volta como que o esvoaçar de um planeta

com barulhos, com súbitas cores, com mágoas e magias. Sim,

ouçam o canto

da noite.

 

Ou até, talvez

o começar do dia

as palavras uma a uma no seu sereno balbuciar

quando as páginas são apenas ardilosas reminiscências

num papel amarfanhado

 

e a nossa voz é um reflexo num conjuntivo ou numa vírgula.

 

 

NS

De “Flauta de Pan”

 

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